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Maceió, 23 de Maio de 2013

13/4/2012 às
Publicado por Adriano Soares



Um animal que sempre está associado ao combate é a águia. É uma ave predadora, cujo olhar intimida. Não é à-toa que virou um dos símbolos de força dos americanos. Mas a águia tem uma história interessante como espécie. Quem nos conta é Renato Bilher:

"A águia é a ave que possui maior longevidade da espécie, chega a viver setenta anos. Mas para chegar a essa idade, aos quarenta anos ela tem que tomar uma séria e difícil decisão. Aos quarenta ela está com as unhas compridas e flexíveis, não consegue mais agarrar suas presas das quais se alimenta. O bico alongado e pontiagudo se curva. Apontando contra o peito estão as asas, envelhecidas e pesadas em função da grossura das penas, e voar já é tão difícil!

Então a águia só tem duas alternativas: Morrer, ou enfrentar um dolorido processo de renovação que irá durar cento e cinquenta dias. Esse processo consiste em voar para o alto de uma montanha e se recolher em um ninho próximo a um paredão onde ela não necessite voar. Então, após encontrar esse lugar, a águia começa a bater com o bico em uma parede até conseguir arrancá-lo.
Após arrancá-lo, espera nascer um novo bico, com o qual vai depois arrancar suas unhas. Quando as novas unhas começam a nascer, ela passa a arrancar as velhas penas. E só cinco meses depois sai o formoso vôo de renovação e para viver então mais trinta anos.

Em nossa vida, muitas vezes, temos de nos resguardar por algum tempo e começar um processo de renovação. Para que continuemos a voar um voo de vitória, devemos nos desprender de lembranças, costumes, velhos hábitos que nos causam dor.
Somente livres do peso do passado, poderemos aproveitar o resultado valioso que a renovação sempre nos traz."

Aqui, como vimos, há uma outra característica da águia: a sua longevidade, porém dependente do sacrifício que esteja disposta a suportar. O sacrifício termina sendo, também para nós, um elemento de longevidade profissional ou pessoal. Ninguém vence na vida sem abdicar dos bicos e das unhas sem pegada; ninguém vence sem uma cota de dor, de perdas, de suor, lágrimas e muita determinação:

Ainda sobre a águia há uma interessante metáfora de James Aggrey, adaptada por Leonardo Boff, que nos ajuda também a refletir sobre o sentido da vida, a nossa vocação e os desafios assumidos.

"A ÁGUIA E A GALINHA: Uma metáfora da condição humana

Era uma vez um camponês que foi a floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Coloco-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros. Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:

- Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia.
- De fato – disse o camponês. É águia. Mas eu criei como galinha.
Ela não é mas uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão.
- Não – retrucou o naturalista. Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar às alturas.
- Não, não – insistiu o camponês. Ela virou galinha e jamais voará como águia.

Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:

- Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra, então abra suas asas e voe!

A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas. O camponês comentou:
- Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!
- Não! – tornou a insistir o naturalista. Ela é uma águia! E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã.

No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!

Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas. O camponês sorriu e voltou à carga:

- Eu lhe havia dito, ela virou galinha!
- Não! – respondeu firmemente o naturalista. Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar.

No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:

- Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!

A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.

Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergue-se, soberana, sobre se mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...

E Aggrey terminou conclamando:

- Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos . Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar."
 
Um animal que, ao contrário, está associado à delicadeza é a borboleta. Leio na Wikipédia que "o termo grego 'psyche' tinha dois significados originalmente. Um deles era alma e o outro, borboleta, que simbolizava o espírito imortal. Na mitologia grega, a personificação da alma é representada por uma mulher com asas de borboleta. Segundo as crenças gregas populares, quando alguém morria, o espírito saia do corpo com uma forma de borboleta".

A borboleta revela, penso eu, a fragilidade: uma beleza sem par, com cores vibrantes ou não, ela parece não ter defesas, mesmo quando ainda lagarta. Mesmo assim, nessa fase, como muito para guardar energia e se enclausurar. É como se fosse para dar um tempo, refletir, refazer-se, para só então se transformar, dando um salto para a liberdade. O casulo se rompe para abrir o mundo para a borboleta. Frágil, sim, mas com coragem suficiente para voar, para polinizar o mundo. A fragilidade e a beleza são suas características conaturais, mas ser frágil não implica ausência de atitude, de coragem de voar para cumprir o seu papel, para viver a sua vocação, para autorrealizar-se como ser-no-mundo, na temporalidade.

Atitude. Sem desculpas ou sem despedir-se das suas responsabilidades para afetá-la a outros. A borboleta não se esconde em sua fragilidade, porque - se o fizesse - não sairia do casulo, não deixaria nunca de ser pupa, escondida dentro da crisálida.

Na natureza, não importa se o animal é forte, como a águia, ou frágil, como a borboleta. O que realmente importa, no ciclo da vida, é se vive a sua vocação, é se faz a sua parte sem esperar que alguém faça por si, como uma eterna justificativa para não ser plenamente realizado no papel que a natureza lhe reservou.

Se temos um lado águia, voltados para os voos altos e os largos horizontes, temos que ter um lado galinha, para que não percamos de ter os pés no chão, a busca de terra firme aonde pousar. E, ainda, um lado borboleta, em que saibamos ter coragem de voar apesar dos nossos medos, das nossas fragilidades.

ÁGUIA = vontade de voar e sonhar alto;
GALINHA = pés nos chão, com a realidade diante dos olhos;
BORBOLETA = coragem para realizar os sonhos de voar, mesmo com as suas fragilidades.

Eis aí três facetas de uma mesma realidade complexa que somos nós. A atitude, os gestos, eles são nossos, quando queremos lutar pelo que vale a pena na realização da nossa vocação, dos nossos sonhos. Temos sempre que fazer a nossa parte!
 



Tags: Prosa

13/4/2012 às
Publicado por Adriano Soares



Ele entrou na sala de audiências com algemas, acompanhado de dois policiais militares. Sentou-se na cadeira dos réus. A acusação era de que havia praticado latrocínio sem dar a vítima, um vigia noturno, chances de se defender. Matara para roubar um revólver e praticar crimes naquela região de Penedo. Promotor e defensor público em seus lugares, iniciei o interrogatório com a qualificação do acusado e as perguntas de praxe do Código de Processo Penal.

Naquela quadra, eu tinha 27 anos e era juiz de Direito em Penedo. O Fórum estava em reforma e estávamos em um casarão antigo, em condições precárias de trabalho. No chão, sem que nos desse conta dos riscos que corríamos, uma caixa de papelão cheia de armas (facas, foices, estiletes, revólveres enferrujados) de outros processos, custodiadas como provas.

Olhei para aquele homem em minha frente. Rosto moreno, com algumas marcas nas maçâs do rosto de pano branco, cabelos bem crespos aparados, relativamente magro, porém forte, com um perfil um pouco atlético. Vestido de camisa de algodão branca e bermuda até os joelhos, devia ele ter entre 20 a 25 anos.

À medida que fazia as perguntas protocolares, ele respondia de cabeça baixa. Se sabia sobre os fatos que lhe eram imputados, se era verdadeira a acusação que pesava sobre si, etc. Quando iniciei a detalhar os acontecimentos da noite do crime, que ele negava ter praticado - mesmo com todas as provas consistentemente demonstrando o contrário -, ele mudou o comportamento. Já não respondia de cabeça baixa. Levantou o rosto e, pela vez primeira, vi os seus olhos.

Era um olhar metálico, frio, sem alma. Não parecia haver vida humana ali, diante de mim, mas um animal enjaulado, sem culpas ou remorsos, sem sentimentos que lhe dessem qualquer traço de humanidade. Impressionou-me sobremodo aquele olhar. E ele cuidava em responder me olhando firmemente nos olhos, nitidamente buscando me intimidar para que as minhas perguntas terminassem logo ou para que eu não fosse detalhista.

Ordenei, de inopino, que ele respeitasse o juízo e baixasse a cabeça. Ele obedeceu. Continuei o interrogatório. Novamente, com olhar ainda mais frio, impenetrável, ele me encarou de modo ainda mais ameaçador. Mandei novamente que baixasse a cabeça. Ele obedeceu. Mas, uma terceira vez, fez o mesmo procedimento. Dessa vez, não determinei mais nada. Continuei a indagá-lo, fitando os seus olhos com firmeza, em um nítido jogo mental que ele estava entabulando: o jogo do amedontramento.

A audiência foi toda ela tensa. Sentia no ar um clima tenso, também do membro do Ministério Público e da Defensoria Pública. Os policiais, em pé, um de cada lado, conservavam a fera passiva, sentada, porém sempre com olhar metálico, amoral.

Terminada a oitiva das testemunhas de defesa e acusação, alegações finais orais, prolatei a sentença de procedência (latrocínio é crime afeto à competência do juiz togado e não do Tribunal do Júri). Apliquei-lhe a maior pena base possível, cumulada com todas as agravantes imagináveis e sem nenhuma atenuante. Pena máxima, sem progressão de regime. Quem quisesse que recorresse daquela sanção justa e exacerbada.

Não sei o que é feito desse bandido. Mas nunca esqueci o olhar daquele rapaz. Dei-me conta, ali, que o mal existe, sim, em estado puro, sem meia medida. Aquele homem não tinha humanidade; era um demônio em forma de gente, um psicopata sem emoção, alguém cujos sentimentos nobres da civilização não fazia morada.

Terminado o julgamento, foi ele levado ao presídio. Só então dei-me conta do risco que corrêramos e o porquê dele olhar, de quando em vez, para um ponto fixo atrás de mim: a caixa cheia de armas. Talvez calculasse ele o sucesso que poderia ter em alcançá-la, levando em conta a presença dos dois policiais armados e das algemas que não foram retiradas durante a audiência, dada a sua periculosidade.

Suei frio. Estávamos todos diante de um perigo real sem que nos déssemos conta da sua gravidade.

Nunca mais soube notícias desse bandido. Mas ele, por certo, é uma das lembranças que trago dos meus 3 anos de magistratura. Com ele, repito, aprendi que o mal existe como força bruta e que há homens sem haja neles marcas ou lembranças de humanidade.



Tags: Prosa, crônica

10/4/2012 às
Publicado por Adriano Soares



É preciso saber viver, como é preciso saber pelo que morrer. Sim, saber por que se vive e saber até para que se morre. Há um "por que" e um "para que".

Por que vivemos é uma questão que, no mais da vez, fica escondida nas franjas do nosso cotidiano, esfarelando-se ao passar dos dias, depois dos anos, sem que venhamos a nos dar conta, navegando como nau sem rumo. A correnteza leva um dia; noutro, o vento. E vamos indo no desfiar das horas, perdidos de nós mesmos, fugindo dos nossos pensamentos, esgueirando-se enquanto não surja um evento capital que nos faça perguntar, assim, simplesmente: "minha vida tem sentido?".

Viver não é andar de bicicleta! Não basta ficar pedalando, morro acima, ladeira abaixo, desviando-se aqui e ali de pedregulhos do caminho.

Pedala, pedala, pedala... O tempo passa, o tempo corre ligeiro, nós fazemos repetidamente aquele gesto. Pedala, pedala, pedala... Para onde, meu caro? "Não dá para responder, tenho que pedalar....".

Nossos labirintos são caminhos mais vistosos do que qualquer outro que nossos olhos possam enamorar. Nem o sol se pondo, tingindo o céu de vermelho enquanto ainda não se deixou cobrir do negro da madrugada, pode ser um quadro mais excitante do que as esquinas da nossa alma.

Mas os nossos labirintos simplesmente são cheios de interrogações, de questões profundas, de imensos "canyons"... Parar para pensar significa ter de parar de pedalar, fazer uma pausa, olhar para si mesmo e para o seu entorno, buscar o significado das coisas e da nossa própria existência. E o que nos faz humanos não é justamente essa divina capacidade de por significado nas coisas?, de dar nome a elas?, de refletir sobre as reflexões dos outros que vieram antes de nós ou que são nossos contemporâneos?

Pedalar, pedalar, pedalar... Porque parar um pouco pode nos revelar que estamos pedalando para um destino que não é o nosso, por um caminho que nos levará para longe de quem somos, de quem amamos, dos sonhos que acalentamos.

Sim, é preciso aprender a parar um pouco e gritar, à boca cheia, uns tantos impropérios, umas tantas sandices, um FODA-SE! absolutamente desbragado, altissonante, para depois ciciar para a própria alma, acalmar o corpo, deixar-se estar, olhar a vida com olhos desarmados, como quem se deleita diante de uma escultura de um Gian Lorenzo BERNINI ou de um nu feminino, de fartas carnes, de um Jean-Pierre RENOIR. Sim, humano que somos, também, e não menos importante - por certo bem mais até! - dar-se ao prazer de uma oração, um Pai-Nosso e uma Ave-Maria, uma prece de conforto e, ainda mais humanos, um pedido por saúde, paz e alguma sorte... porque ninguém é de ferro.

Vivemos para ser felizes!

Não vivemos para pedalar!

Vivemos sem um mapa, mas com a busca constante da felicidade, da plenitude, da inteireza do nosso ser.

Dinheiro, poder, prestígio, sucesso, respeito, tudo isso é bom e legítimo. Não podem ser demonizados. Todos buscamos um lugar ao sol, o reconhecimento do nosso talento ou do nosso trabalho, a possibilidade de ter recursos para um passeio, um carro, uma vida decente ou, no mínimo, uma vida digna. E lutamos todos os dias para construir nosso campo de pouso no mundo. Mas se só lutamos por isso, estamos apenas pedalando, pedalando, pedalando... E por mais que tenhamos, e por mais que acumulemos, por mais que possamos, não haverá nem tampouco trará felicidade.

Sim, haverá momentos de alegria; sim, haverá um átimo de realização. Mas aí, após a conquista, o que nos resta? Mais buscas, mais necessidades, mais correria, de modo que a bicicleta continue em um movimento constante, nem sempre linear, pedalando, pedalando, pedalando...

E aí vem a segunda questão: "para quê"? Se vivo porque vivo, para que eu morro? A pergunta parece desarrazoada, pois se nem sei por que vivo, para que buscarei entender a razão da morte?

Poucos, na filosofia contemporânea, foram tão marcados por essa questão como Heidegger. Para ele, o homem possui como característica existenciária o "Dasein" (ser-aí), ou seja, o ser-no-mundo, o estar em situação. Como ser-no-mundo, a essência do homem seria a sua "existência", que é essa característica do homem ser fora de si e para si mesmo, com as suas potencialidades, os seus planos, os ideiais que lhe fazem agir. E o homem existe como ser-no-mundo na temporalidade. A existência do homem se dá no tempo; o seu ser é sempre e já o ser-aí.

Como diz Aline Mayte Terhorst ("O Existencialista Martin Heidegger"), forte nas lições de Ernildo Stein:


"O homem é um existente porque está essencialmente ligado ao tempo. Isso faz com que ele se encontre sempre além de si mesmo, nas possibilidades futuras. Neste sentido o homem é futuro. Mas para pôr em ato essa possibilidade, ele parte sempre de uma situação, na qual ele já se encontra, neste sentido ele é passado. Finalmente, enquanto ele faz uso das coisas que o cercam, ele é presente". E conclui ela, adiante: "Com a morte o homem conquista a totalidade de sua vida. Enquanto ela chega ela não chega, falta a ele alguma coisa que ainda não pode ser e que será. O homem adquire consciência da sua submissão à morte através da angústia, outra disposição fundamental do ser.

Heidegger chama a morte de 'principio de individuação', o princípio formal da vida humana: a vida humana se torna um todo somente mediante a morte, que a limita. Só a morte permite ao homem ser completo".


A temporalidade é o eixo da vida; a morte, a sua totalidade. Ela é o ponto de chegada, a completude da existência, onde já não há mais futuro.

Para quem não tem fé, para quem não acredita que tenhamos uma vida após a morte, para quem joga tudo no viver sem "porquês", sem "paraquês", a morte é uma questão sem-sentido. Não raro, porém, é justamente a escapadela que muitos, já fartos de tanto poder, dinheiro, fausto, buscam, porque viver já não tem mais sentido; estão empanturrados de tudo.

Vou concluir, agora.

Viver é um dom. A busca da realização é a vocação humana. A felicidade é uma aspiração legítima. Só quem tem a coragem de ir contra a corrente, contra os ventos, pode navegar para o seu destino, ainda que seja mais custoso, ainda que exija muito mais esforço. Viver, porém, ocorre na temporalidade. Não temos, como na música do Legião Urbana, "todo o tempo do mundo" (música "Tempo Perdido"), tampouco seremos para sempre "tão jovens!".

Se viver é um dom, morrer é o nosso destino!

Viver é preciso; pedalar é uma necessidade circunstancial. O que nos faz maiores e melhores é o tempo que, qualitativamente, podemos parar para apreciar o caminho, sabendo para onde vamos e por que vamos. Sem pressa de chegar, sem ansiedades desmedidas, mas com a convicção que brota da alma, com a força que vem de um coração que se permitiu amadurecer.

O sentido da vida, meus caros, passa necessariamente pela verdade que buscamos. E só podemos ser felizes, realmente felizes, se lutarmos pela nossa realização pessoal, a descoberta diária de quem somos, ainda que tenhamos, em seguida, que continuar a pedalar, pedalar, pedalar...

Tenhamos um tempo para nós e lutemos, sem tréguas, pelo que realmente vale a pena, pelo que nos trará realização, pelo que amamos e, sobretudo, pela nossa alma.



Tags: Filosofia, religião

8/3/2012 às
Publicado por Adriano Soares



Há tempo para tudo na vida. Tempo de esperar, tempo de decidir, tempo de agir, tempo de amar... Só não há tempo de perder tempo. O tempo que se perde é a vida não vivida, o sonho não sonhado, a felicidade abdicada.

O tempo não é inimigo. É apenas uma verdade. A verdade do que vivemos ou a verdade do que nos negamos a viver por comodismo.


Como diz o poeta Oswaldo Montenegro, em uma de suas músicas, "eu quero ser feliz a gora!". O "agora" é a calibração do tempo. Não quero postergar, não quero deixar para amanhã, não quero simplesmente dar de ombros, como se houvesse um dia sequer em que pudesse abrir mão de ser feliz.

E ser feliz nada mais é do que dar passos para a honesta autorrealização. Passos para o que grita em nossa alma, para a essência que somos. Passos para o destino que nos chama, proclamando ao nosso coração: "Vem!".

O tempo, então, é o ladrilho que faz o nosso caminho. É o piso que diz dos nossos passos ou da nossa paralisia. E sendo o eixo aonde a vida se dá, poderá ser nosso aliado ou nosso inquisidor. Ele nos mostrará o quanto percorremos ou, tristemente, o quanto simplesmente ficamos ali estacionados, como se tudo passasse por nós e estivéssemos em um ponto morto dominado pelo medo e pelo comodismo amargo.

Tempo, tempo, tempo, tempo...

Tags: Crônica

2/3/2012 às
Publicado por Adriano Soares



Leia abaixo o poema "If", de Rudyard Kipling, em tradução de Guilherme de Almeida. Eram os versos preferidos do publisher do Grupo Folha, Octavio Frias de Oliveira, que morreu na tarde do dia 29 de abril 2007, em São Paulo, aos 94 anos:

SE

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;

Se és capaz de pensar --sem que a isso só te atires,
De sonhar --sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: "Persiste!";

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais --tu serás um homem, ó meu filho! 

IF

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you,
If you can trust yourself when all men doubt you
But make allowance for their doubting too,
If you can wait and not be tired by waiting,
Or being lied about, don't deal in lies,
Or being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream--and not make dreams your master,
If you can think--and not make thoughts your aim;
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build 'em up with worn-out tools; 

If you can make one heap of all your winnings
And risk it all on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!" 

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings --nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much,
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And --which is more-- you'll be a Man, my son!



Tags: Poesia

26/2/2012 às
Publicado por Adriano Soares



Era para ser como o encontro do rio com o mar. A convulsão do encontro antes da calmaria profunda, que é a vocação dos amantes.

Era para ser como um sorriso aberto, largo, pleno, do que se deixou encantar pela entrada dos olhos, pelo que se viu esperado e achado entre as esquinas da vida.

Era para ser como a estrela primeira a brilhar, quando a tarde começa a dormir e a noite lhe toma o lugar e ilumina o céu com o descortinar das estrelas.

Era para ser como um sonho bom, que deleita o sono profundo e faz com que o acordar seja pesaroso e triste.

Era para ser como a alegria de um momento que se eterniza em nós, para além do tempo e das vicissitudes da vida.

Era para ser... E ao não ser, tanto se perdeu, tanto ficou por ser vivido e feito. E restou o sorriso que não veio, o olhar que não brilhou, a estrela que ficou submissa às nuvens, a alegria que não se viveu.

E a vida seguiu assim, como uma nau sem velas, levada pelo fluxo das marés, sem ter sonhos para sonhar e terras novas a descobrir.

E veio o tempo... E ao olhar para trás, tudo era apenas a ausência do que não foi. E o viver - esse dom maravilhoso - ficou como um projeto não realizado, um passar de dias sem sentido e sem fé. E tudo era nada, e tudo era desilusão, e tudo era a certeza dos erros das dúvidas e dos medos.



Tags: Poesia, Prosa

24/2/2012 às
Publicado por Adriano Soares



Um dos grandes movimentos da filosofia ocidental decorreu da descoberta do papel central da linguagem não apenas como instrumento para a comunicação, mas sobretudo como sendo ela a própria realidade. Heidegger cunhou frase lapidar: "Ser que pode ser compreendido é linguagem".

A linguagem, portanto, deixaria de ser o "medium" para ser, ela própria, a realidade. O que vem pela linguagem existe; sobre o que não se pode falar, ou não existe ou é o inefável, como sustentara o primeiro Wittgenstein, já no fecho do "Tratactus logico-philosophicus".

Uma das dimensões fundamentais da linguagem é pragmática. Enquanto a semântica se atém à relação entre o signo e a coisa por ele designado e a sintaxe se prende à relação dos signos consigo mesmo na estrutura expressional, cuida a pragmática da relação dialógica dos atos de fala. A linguagem é uma realidade intersubjetiva, comunitária. Não há linguagem privada; o falar e o pensar ocorre sempre em um processo dialógico, através de uma gramática comum à comunidade do discurso.

Todas as principais experiências humanas reclamam uma expressão em linguagem: o amor, a fé, o desejo, a dor, o sofrimento, a saudade, a alegria... Tudo em nós reclama a expressão, o sair de si mesmo e se fazer compreensível ao outro. Estamos e somos sempre em um profundo e indefectível processo de diálogo: eu-eu, eu-tu, eu-nós.

A fé cristã, por exemplo, desde o seu nascedouro foi comunitária. Após a morte de Cristo, fato histórico que ninguém seriamente duvida - é certo que há sempre uns tolos que ganham dinheiro criando teorias bobas para negar um evento que marcou a história da humanidade -, restavam alguns poucos discípulos seus medrosos e acovardados. Pescadores, homens de pouca cultura e sem prestígio social, foram perseguidos pelos judeus e pelos romanos.

Algo de extraordinário ocorreu. Aqueles homens de nenhum relevo começaram a anunciar um evento sem provas: o Cristo morto havia ressuscitado! A morte fora vencida por ele; a boa nova era justamente um escândalo para os judeus (autoridade religiosa) e uma loucura para os gregos (autoridade intelectual), no dizer preciso de São Paulo. E o anúncio foi marcado pela superação do medo, pelo corajoso enfrentamento e martírio. Pentecostes é esse marco: os homens medrosos saem dos esconderijos e anunciam a ressurreição.

E, desde ali, a fé passou a ser não uma viagem individual, uma experiência pessoal exclusiva. A fé cristã é uma experiência comunitária. NÓS CREMOS, dizem os cristãos desde os primórdios. Crer, ter fé, para os cristãos, por conseguinte, é uma experiência pragmática (no sentido linguístico), em que EU ME INSIRO NUMA VERDADE REVELADA E VIVIDA PELOS QUE CREEM. A fé em Cristo é a fé em uma pessoa encarnada, em uma verdade que se põe para mim de fora para dentro e me invade, me toma, me domina.

A fé não é, portanto, a MINHA FÉ, mas a FÉ DOS CRISTÃOS. A fé não se amolda aos meus pensamentos, não sou nem posso ser seu dono ou proprietário. A fé é uma realidade comunitária, na qual me insiro e me descubro como pessoa e como crente. A fé, então, é uma adesão livre e consciente, apaixonada, mas sempre uma adesão.

Os orientais buscam sempre um outro caminho. A verdade seria sempre uma experiência interna, uma busca em si mesmo. Nós seríamos parte de um todo, do deus que habita em mim e para o qual eu retorno após a morte, me dessubjetivando. Ser feliz seria cada vez mais abrir mão de si mesmo, em um processo de autonegação. E esse processo seria uma viagem interna, uma busca por si mesmo em um processo de abandono do self, do ego.

O pensamento, expressão da linguagem que define o nosso mundo e o nosso ser no mundo, seria um mal a ser deixado de lado. Nosso processo de autonegação implicaria a libertação da mente do próprio ato de pensar. Como disse um guru respeitado nos dias de hoje, com seguidores no Brasil, Jiddu Krishnamurti (+ 1986): "Meditação é libertar a mente de toda desonestidade. O pensamento gera desonestidade. O pensamento, no seu esforço para ser honesto, é comparativo e, portanto, desonesto. (…) Meditação é o movimento dessa honestidade no silêncio".

Tomo ainda a fala de J. Krishnamurti como expressão dessa lógica de autonegação através de processos que visam, através da meditação, a busca do abandono de si mesmo, porque pelo abondono do self alcançaria o fluxo vital do qual faria parte e no qual devo me perder, como um Nirvana budista: "Eu aprenderei como estar quieto; aprenderei como meditar com o objetivo de ficar quieto. Eu vejo a importância de se ter uma mente que seja livre do tempo, livre do mecanismo do pensamento, eu a controlarei, a subjugarei, expulsarei o pensamento. Mas isto ainda é operação do pensamento. Isso está muito claro. Então o que ela deve fazer? Porque um ser humano vive nessa desarmonia, ele deve questionar isso. E isso é o que estamos fazendo. Como começamos a questionar isso, ou no questionar, chegamos a essa fonte. É ela uma percepção, um insight, e esse insight não tem nada, coisa alguma a ver com o pensamento? É o insight o resultado do pensamento? A conclusão de um insight é pensamento, mas o insight propriamente não é pensamento. Assim, eu obtive uma chave para isso. Então o que é insight? Posso convidá-lo, cultivá-lo? Isso é afeição, isso é amor. Quando você fala à minha consciência desperta, ela é dura, esperta, sutil, aguda. E você a penetra, penetra-a com seu ver, com sua afeição, com todo o sentimento que tem. Isso opera, nada mais."

E, adiante, ensina ele, completando a sua compreensão: "Não pode dividir a si mesma como "minha inteligência" e "sua inteligência". Ela é inteligência, não é divisível. Agora ela brotou de uma fonte de energia que dividiu a si mesma..." E segue: "Pensamento, matéria, o mecânico, é energia. Inteligência também é energia. O pensamento está confuso, poluído, dividindo a si mesmo, fragmentando a si mesmo. Portanto eu diria que o pensamento deve estar completamente quieto para o despertar da inteligência. Não pode haver um movimento de pensamento e ocorrer o despertar da inteligência."

Como se observa, há uma imensa diferença entre a fé cristã e o pensamento oriental "lato senso": os orientais negam a individualidade, negam o valor do eu e do pensamento, apontam para o TODO ASSUBJETIVADO como sendo a paz e o destino nosso; o cristão valoriza a subjetividade, a dimensão pessoal do homem, e aponta para a fé como como uma realidade intersubjetiva, em que aderimos a verdade do Cristo que se revela na história e nos convida para um diálogo de amor eterno.

O cristianismo valoriza a criação como um todo: a matéria e o espírito têm o mesmo valor como criação do amor de Deus. Ambos, fraturados pelo pecado, são restaurados pelo amor de Deus, que se esvazia, se encarna e assume a nossa história.

A nossa realização não vem da autonegação, mas da nossa afirmação pessoal e comunitária no amor de Deus. Meditar não é abandonar o pensamento, mas voltar o pensamento para Deus, em um ato de entrega e fé. Não preciso, para ser pleno, "esquecer ou abdicar" do mundo lá fora; a plenitude vem em um processo nunca acabado em nossa vida terrena, fraturada pelo pecado, que se realiza através da ressurreição individual. Ou seja, no cristianismo não me dissolvo em um Nirvana; me realizo em plenitude, em minha individualidade, na profunda relação de amor com Deus e com os demais, em um diálogo eterno e constante.

Ouvi com muita atenção as lições de J. Krishnamurti. Veja um dos seus vídeos mais abaixo. E ao ouvi-lo, vi um bom homem reflitindo, em voz pausada, sobre a negação do pensamento, do que somos em nossa constituição antropológica mais profunda. Segundo ele, como não há pensamento completo sobre nada, não se pode pensar na completude, nem o imensurável. Desse modo, Deus e as religiões seriam criações do pensamento, ideologias que levariam às guerras e à mentira.

Mesmo os relacionamentos mais fraternos seriam produtos do pensamento e levariam, também eles, ao conflito. O fundamental seria "romper com a cadeia da continuidade do ego. Só então é possível viver com outro sem uma sombra qualquer de conflito" (1:18:53 do vídeo). Só abrindo mão do eu que poderia estar sem conflito com o outro. Só na autonegação poderia me afirmar perante o outro sem conflito...



Sinceramente, é uma leitura da vida que expurga como mal a religião, a tecnologia, as relações humanas... O que restaria seria, então, abdicar da própria humanidade para, dissolvendo-se no nada, nada restar de si mesmo!

Aliás,  J. Krishnamurti firma, noutro vídeo em que dialogo com o Pe. Eugene Scharllet, a seguinte definição de liberdade: "Liberdade é a negação de ser condicionado por qualquer cultura, por qualquer divisão religiosa ou política". Ou seja, liberdade seria estar morto, porque estamos inseridos sempre na cultura; a cultura humana é o eixo em que a vida se dá; a linguagem, aliás, é a maior expressão da cultura. Libertar-se da cultura seria simplesmente deixar de pensar, de respirar. Lamentavelmente o tal Pe. Eugene Scharllet é muito fraquinho e não sabe nada da própria fé e da própria religião. Ora, NEGAR A CULTURA SERIA UM ATO DE ESCOLHA FUNDAMENTADO, OU NÃO, PORÉM - salvo em caso de morte ou coma profundo - A ADOÇÃO DE UMA OUTRA CULTURA, DIVERSA DAQUELA NEGADA.

Para Jiddu Krishnamurti, então, existe uma realidade viva, uma totalidade, que só podemos alcançar se nos transformarmos numa espécie de folha de papel em branco, livres de todo o conhecimento e crença em que vivemos; livres, portanto, da cultura. E só podemos alcançar isso através de uma ação individual. E o que seria essa individual? Chama-se individualidade, para ele, "o estado no qual a ação tem lugar através da compreensão liberta de todos os padrões – sociais, econômicos ou espirituais. É a isto que eu chamo a verdadeira individualidade, porque é ação nascida da plenitude do entendimento, ao passo que o egotismo tem as suas raízes na segurança, na tradição, na crença. Por isso a ação induzida pelo egotismo é sempre incompleta, está sempre ligada à luta incessante com sofrimento e dor" (in: "A Arte de Escutar; Stresa, Itália - 1ª palestra 2 de julho, 1933).

Note-se: o mundo da vida ("Die Lebenswelt"), que é a nossa realidade onde nos inserimos como pessoas, onde a nossa existência se dá, teria que ser dissolvido, simplesmente. Filosoficamente, Krishnamurti desconsidera uma das grandes conquistas da filosofia moderna, sobretudo a partir de E. Husserl, que é o conceito de "mundo da vida. Husserl já dissera que "O mundo nos é dado de antemão, a nós despertos, que somos sempre de algum modo sujeitos com interesse prático…[o mundo] nos é dado como campo universal de toda praxis efetiva e possível, dado de antemão como horizonte". Ora, Krishnamurti trata a nossa realidade como não-realidade, como um obstáculo ao conhecimento, inclusive.

Não por outra razão, o tempo passa a ser um problema para Krishnamurti. Enquanto estivermos presos ao passado, presente ou futuro, teremos obstáculos ao conhecimento. Só podemos alcançar a verdade se a nossa mente se descolar da temporalidade. Diz ele: "Enquanto houver esta marca da memória, tem que existir a divisão do tempo em passado, presente e futuro. Enquanto a mente estiver acorrentada à ideia de que a acção deve ser dividida em passado, presente e futuro, há identificação através do tempo e por isso uma continuidade da qual resulta o medo da morte, o medo da perda do amor. Para compreender a realidade intemporal, a vida intemporal, a acção deve ser completa". E, adiante, é ainda mais claro quanto ao ponto: "Para mim, portanto, a coerência é um sinal de memória, memória esta que resulta da falta de verdadeira compreensão da experiência. E essa memória cria a ideia de tempo; cria a ideia de presente, passado e futuro, sobre os quais se baseiam as nossas ações. Consideramos o que éramos ontem, o que seremos amanhã. Tal ideia sobre o tempo existe enquanto mente e coração estiverem divididos. Enquanto a ação não nascer da plenitude, tem que haver divisão do tempo. O tempo é apenas uma ilusão, é apenas a incompletude da ação" (In: "A Arte de Escutar", Alpino, Itália - 4ª palestra 9 de julho, 1933).

Quanto mais leio J. Krishnamurti, mais me impressiona a vaguidade das suas afirmações, que entram num campo exotérico e caem em um profundo irracionalismo. A liberdade e a verdade, enfim, não seriam possíveis em nossa vida mundana, em que os fatos e o transcurso da nossa história se dão. Temos que fugir para uma realidade atemporal, libertos dos pensamentos, das crenças, do mundo da vida. A liberdade seria a negação do eu, de todas as circunstâncias vitais que me fazem ser quem sou.

Para onde nos levaria essa forma de pensar de J. Krishnamurti? Ele nos dá uma dica: devemos abrir mão de toda e qualquer segurança, inclusive daquelas advindas da prática de virtudes. Tudo isso seria obstáculos à liberdade: "Quando o homem estabelece uma segurança – a segurança da opinião pública ou da felicidade que ele obtém das posses ou da prática da virtude, que é uma fuga – ele enfrenta cada incidente da vida, cada uma das inumeráveis experiências da vida, com o pano de fundo dessa segurança: isto é, ele nunca enfrenta a vida como ela realmente é. Chega a ela com um preconceito, com um pano de fundo já desenvolvido pelo medo; aborda a vida com a mente totalmente revestida, sobrecarregada, de ideias" ("A Arte de Escutar", Oslo, Noruega - palestra no auditório da universidade 5 de setembro, 1933).

E só haveria um meio adequado para se chegar a essa libertação que leva à verdade: abrir mão do eu, negar-se. Nessa mesma palestra ele assevera: "Eu afirmo que existe essa realidade de vida eterna, mas não pode ser compreendida enquanto a mente e o coração estiverem sobrecarregados, estropiados pela ideia do “eu”. Enquanto essa auto-consciência, essa limitação, existir, não pode haver qualquer compreensão do todo, da totalidade da vida. Esse “eu” existe enquanto houverem falsos valores – falsos valores que herdamos ou que perseverantemente criamos na nossa busca de segurança, ou que estabelecemos como a nossa autoridade na busca de conforto".

Insisto nesse ponto: a doutrina de J. Krishnamurti advoga o mais absoluto irracionalismo, a negação do eu, a abdicação dos nossos valores e das conquistas da tradição. A cultura, as nossas descobertas científicas, as nossas crenças, tudo seria um obstáculo à verdade e à liberdade. O que nos restaria, então, diante disso? A resposta que ele nos oferta - perdoem-me a sinceridade - é simplesmente risível e tola: "essa dificuldade existirá enquanto as vossas mentes estiverem sobrecarregadas com esta consciência a que chamamos “eu”. Não posso dar-lhes valores correctos, se eu vo-los dissesse, fariam disso um sistema e imitá-lo-iam, estabelecendo desse modo apenas uma outra série de falsos valores. Mas podem descobrir por si próprios os valores correctos, quando se tornarem verdadeiramente indivíduos, quando cessarem de ser uma máquina. E só se podem libertar desta máquina mortífera dos falsos valores quando estiverem muito revoltados".

J. Krishnamurti prega simplesmente o nada, a fuga da realidade, negando o valor da história e da cultura, porém negando-se a colocar qualquer outra coisa em seu lugar. Ora, para mim isso não é muito pouco; é simplesmente o irracionalismo pintado de misticismo exótico.

Ora, somos embebidos na cultura; a expressão mais imediata do "tesouro comum da humanidade"(Gottlob Frege) é a linguagem. O ato de pensar é individual, mental, mas se realiza na linguagem; o pensamento, produto do ato de pensar, pode ser transmitido a outros e, não raro, pensamos os mesmos pensamentos pensados por outros.

Tudo o que construimos, tudo o que transformamos, é cultura. O fazer humano é sempre dentro de uma tradição, dentro de uma realidade simbólica intersubjetivamente vivida. A cultura produz e reproduz cultura. A reflexão pessoal, posta dentro de um contexto de diálogo, produz consensos e dissensos. A dialética da argumentação, a tese e antítese, as múltiplas formas da compreensão geram mais cultura.

Essa é a nossa riqueza. A busca do consenso é justamente isso: uma busca interminável! Se o agir comunicativo é livre, sincero, voltado ao consenso, podemos avançar na busca de pontos de encontro cada mais firmes, mas o consenso qual tal é uma quimera; o conflito em si mesmo não é um mal: é fonte de crianção intelectual e novas formas de pensamento.

A crença, seja ela religiosa ou filosófica ou de que natureza for, é algo ínsito à cultura humana. Ter pontos de vista, ter uma concepção de mundo, é próprio à condição humana. Por isso, soa desarrazoado quando se receita o fim das crenças para a obtenção da paz:

"A crença inevitavelmente separa.Quem tem uma crença, ou quando buscam segurança nessa crença, separa-se daqueles que buscam segurança em alguma outra forma de crença" (J. Krishnamurti)

Ora, aqui já se expressa uma crença: a de que a crença separa! Krishnamurti universaliza a sua crença, excluindo qualquer outra. E a sua crença é niilista: melhor não ter crença alguma! É dizer, o único meio de encontrar a liberdade e a paz seria deixar de pensar, deixar de se interrogar sobre nós e sobre o mundo, deixar de exercer a nossa capacidade especulativa. É uma lógica que nos diz o seguinte: sejamos amebas e encontraremos a paz!

Impressionou-me muito os vídeos que assisti de J. Krishnamurti. Um homem de fala pausada, que passa uma paz ao falar, demonstrando, em seu gestual, ter aquela visão de algo hermético, profundo, que nós não conseguimos apreender de imediato. Mas quando vamos decompondo racionalmente o seu discurso, quando vamos analisando as consequências lógicas da sua fala, sobra uma sensação de que restou muito pouco para ser aproveitado. E o pouco que restou é vago demais.

A filosofia ocidental avançou demais, mas esse misticismo hermético dos orientais seduz muito aos que estão com sede de sentido. Evocam sentimentos bons, difusos, de modo que aquela fala meio sem sentido parece contecer verdades profundas que fazem bem. É como aquela bebida enteógena conhecida como "ahyausca", chamada Santo Daime: provoca sensações boas... E só, ao final!

Vou terminar as minhas impressões sobre J. Krishnamurti, analisando o que ele compreende por "amor". Disse eu que essa era uma palavra plurívoca, que não podia ser usada como chave para tudo. Um guru dizer que a solução para a felicidade é o amor, ou que a verdade é o amor, ou que a liberdade é o amor, simplesmente põe as coisas no campo do óbvio e - tanto pior - do que não pode ser debatido. Ninguém discordará sobre a importância do amor, salvo se comecemos a nos entender sobre o que cada um entende por "amor". Aí o pau canta, não é mesmo?!

J. Krishnamurti tratou sobre o amor em seu livro "Liberte-se do passado", na décima parte. Como sempre, para abordar o tema ele nega o valor da cultura, das compreensões existentes. Para ele, afinal, a cultura é um mal: "Assim, para examinarmos a questão do amor - o que é o amor - devemos primeiramente libertar-nos das incrustações dos séculos, lançar fora todos os ideais e ideologias sobre o que ele deve ou não deve ser. Dividir qualquer coisa em o que deveria ser e o que é, é a maneira mais ilusória de enfrentar a vida". Em seguida, exclui o valor das concepções existentes: "Em primeiro lugar, rejeitarei tudo o que a Igreja, a sociedade, meus pais e amigos, todas as pessoas e todos os livros disseram a seu respeito, porque desejo descobrir por mim mesmo o que ele é".

Ele passa, em seguida, a dizer o que não seria o amor. Diz ele: "No estado de pertencer a outro, de ser psicologicamente nutrido por outro, de outro depender - em tudo isso existe sempre, necessariamente, a ansiedade, o medo, o ciúme, a culpa, e enquanto existe medo, não existe amor". Ou seja, rejeita ele como amor a entrega do homem a uma mulher, e vice-versa, em um relacionamento sadio e profundo de entrega e ajuda.

À falta de melhor conceito, e para forjar algo novo, vai para o exotérico ao dizer o que é o amor: "Não sabeis o que significa amar realmente alguém - amar sem ódio, sem ciúme, sem raiva, sem procurar interferir no que o outro faz ou pensa, sem condenar, sem comparar - não sabeis o que isso significa? Quando há amor, há comparação? Quando amais alguém de todo o coração, com toda a vossa mente, todo o vosso corpo, todo o vosso ser, existe comparação? Quando vos abandonais completamente a esse amor, não existe 'o outro'". Ora, pergunto eu: se não existe o outro, o ser amado foi absorvido pelo eu? Onde fica a polaridade do amor na relação eu-tu? O eu mata o tu, absorve-o?

Bem, aí nosso guru se sai com afirmações vazias, fátuas, que me impressionam pela falta de conteúdo. Assere ele: "Mas, se desejais continuar a descobrir, vereis que o medo não é amor, a dependência não é amor, o ciúme não é amor, a posse e o domínio não são amor, responsabilidade e dever não são amor, autocompaixão não é amor, a agonia de não ser amado não é amor, que o amor não é o oposto do ódio, como também a humildade não é o oposto da vaidade. Dessarte, se fordes capaz de eliminar tudo isso, não à força, porém lavando-o assim como a chuva fina lava a poeira de muitos dias depositada numa folha, então, talvez, encontrareis aquela flor peregrina que o homem sempre buscou sequiosamente."

Resta-me perguntar, quase em desespero: que coisa é o amor, afinal, para o senhor, meu caro guru? A resposta dele me deixou maravilhado: um engodo retórico de dizer o raso parecendo dizê-lo de modo profundo. Krishnamurti nos diz algo absolutamente vazio de sentido: "O amor é uma coisa nova, fresca, viva. Não tem ontem nem amanhã. Está além da confusão do pensamento. Só a mente inocente sabe o que é o amor, e a mente inocente pode viver no mundo não inocente. Só é possível encontrá-la, essa coisa maravilhosa que o homem sempre buscou sequiosamente por meio de sacrifícios, de adoração, das relações, do sexo, de toda espécie de prazer e de dor, só é possível encontrá-la quando o pensamento, alcançando a compreensão de si próprio, termina naturalmente. O amor não conhece oposto, não conhece conflito".

Fiquei chocado com essa definição de amor. Com todo o respeito, só faltou dizer: amor é porra nenhuma! Eu prefiro uma definição tão profunda quanto a que ele ofertou e que concebi agora: AMOR é o vazio do vazio do vazio, invertido e desdobrado no encralacrado da vida. Amar é pegar o avesso do sentimento e embuti-lo no reluzimento da alma até que a luz se faça presente no infinito do ser. Traduzindo: porra nenhuma!

Feitas essas reflexões, peço cuidado aos que se encantam com esses gurus. Os caras dizem muito de coisa nenhuma, mas de uma forma inteligente, exotérica e exótica, num misticismo sem compromisso com a lógica. É isso. E me perdoem os que gostam dessas construções.


Tags: Filosofia, Religião

24/2/2012 às
Publicado por Adriano Soares



O hábito de se perguntar e buscar respostas é fundamental. Olhar-se é o primeiro passo para o crescimento pessoal e para a tomada de decisões.

Às vezes, a pretexto de se decidir perde-se tempo demais sem que se dê um passo para um ou outro lado. O ficar parado, nada obstante, é já uma decisão: o não-decidir-se é simplesmente deixar para a vida ou para as circunstâncias a solução que nos competia.

Bastas vezes nos encontramos em situações decisivas, mas nos paralisamos e deixamos de agir. Trata-se de uma zona de conforto, é certo, mas que falseia a realidade; dá-nos a sensação de segurança, mas apenas revela o receio de assumir o que é conatural à vida: os riscos!

E o maior risco, na verdade, é a passividade. Ela pode nos levar a perder o que é importante em nossas vidas. No mínimo, pode nos levar a deixar de viver aquilo que seria próprio e oportuno para demarcar quem somos no palco da vida.

Olhar-se é um gesto firme, uma aventura, o início do processo de descoberta. Olhar-se é abrir-se para si mesmo sem retoques, sem o olhar censor do outro. Olhar-se é permitir-se ser, simplesmente. E sendo, descobrir-se na aventura da vida.



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